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“Antes, o brega era a pior coisa do mundo”

Em novo álbum, Marco André critica repentina aceitação do gênero

texto Itamar Dantas

Marco André lança ritmos paraenses em Nem Révi Nem Laite. Foto: divulgação

Em “O Bullying do Brega”, canção que abre o novo disco de Marco André, Nem Révi Nem Laite, o músico paraense rasga o verbo sobre o recente interesse da juventude pela música brega: “Bizarro, ser brega sempre foi ser bizarro/Que saco, que saco, que saco!/Nego praticou bullying em mim:/Tu é brega, tu é brega, tu é brega!”, canta. Desde o início de 2000, Marco trabalha fortemente com os ritmos vindos de sua terra natal e acha estranha essa repentina aceitação no Sudeste da música feita no Norte/Nordeste brasileiros dos últimos anos.

Misturando ritmos tradicionais e contemporâneos, o álbum percorre o tecnobrega e também visita o carimbó, a rumba e a guitarrada. Na parte instrumental, os sons da guitarra elétrica com o das aparelhagens paraenses e dos instrumentos típicos de seu estado, como o banjo de carimbó (feito por pescadores, com cordas de linha de pesca e corpo de panela de aço) e o curimbó (tambor de tronco de árvore maciço escavado e couro de pele de veado, que pesa aproximadamente 70 quilos).

A primeira aparição de destaque do músico se deu em 1990, quando lançou seu primeiro álbum, Olhar e Segredo, e teve a música ”Meu Bem, Meu Mal” como trilha de abertura da novela de mesmo nome. Nem Révi Nem Laite é seu sexto álbum. Marco André também produziu discos de artistas, como Jane Duboc, Sebastião Tapajós e Dona Onete, seus conterrâneos.

Em entrevista ao Álbum, o músico fala da produção do disco, das referências e das questões que o levaram a compor “Bullying do Brega”.

ÁLBUM – Na música “Bullying do Brega” você diz que o gênero sofre assédio. Por quê? 
MARCO ANDRÉ – Posso citar Odair José e Gretchen, que sempre foram taxados artisticamente de “sem valor nenhum”, e depois de serem gravados por grandes nomes ganharam aceitação. No Pará sempre existiu uma cena muito forte, das aparelhagens, que era do brega, e sempre foi vista como a pior coisa do mundo. E foi a partir de um olhar antropológico do Sudeste que começaram a valorizar o que acontecia por aqui. Os jovens começaram a perceber o brega de forma natural, porque começou a virar moda. Vi uma entrevista muito pertinente do Zeca Baleiro em que ele falava: “Eu vivi isso, eu gosto disso, é da minha época. E as pessoas mais novas não têm essa relação com essa música. Eu sinto que, no fim das contas, essa onda é uma coisa um pouco fake”.

Qual é o papel da guitarra no seu disco e na música do Pará?
A guitarra sempre foi protagonista da música feita do Pará. O banjo aparece de forma mais tradicional, no carimbó, no boi-bumbá, e a guitarra nos ritmos mais urbanos, como na lambada e no brega. Há também a guitarra estilizada na música do Pinduca. Apesar de morar no Rio de Janeiro, sempre fui muito influenciado pela cena do Pará, onde a guitarra está aparecendo cada vez mais. Eu senti a necessidade de poder gravar nos meus discos uma linguagem que fosse mais próxima disso.

Como você chegou às misturas de ritmos apresentadas no álbum?
A partir do CD Amazônia Groove (independente, 2004). Fiz esse trabalho mais brasileiro, buscando mesclar as referências do Pará e as coisas atuais. A gente estava engatinhando no sentido de usar a tecnologia a favor da tradição. Nesse disco, por exemplo, comecei a compor um breguinha na guitarra, mas eu não queria fazer só isso. Aí resolvi frevear o brega. E isso aparece na música “Só Risos”. Você tem uma guitarra e um naipe da orquestra do Spok Frevo. Estou recebendo as influências e as assimilando. Faço isso tanto no meu trabalho solo quanto no meu outro projeto, o CaBloco Muderno. No fundo, tentei seguir o que sempre acreditei, que é a minha verdade.

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