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A voz do silêncio

Ceumar lança Silencia, que mescla composições autorais e de contemporâneos, como Vitor Ramil e Kiko Dinucci

texto Itamar Dantas

Ceumar lança sexto álbum da carreira, Silencia, em que explora pensamentos íntimos e suas origens. Foto: divulgação

Ceumar lança o sexto disco da carreira, Silencia. Segundo ela, um álbum introspectivo que reflete seu momento atual.

A cantora e compositora mineira vive na Holanda desde 2009. Lá, lançou no ano seguinte à sua chegada o álbum Live in Amsterdam. Mas ainda faltava um registro novo, com músicas prioritariamente inéditas. Começou a juntar repertório entre músicas de sua autoria e de parceiros e compositores que admira: Gildes Bezerra, Sérgio Pererê, Déa Trancoso, Kiko Dinucci e Vitor Ramil, entre outros.

Para a direção artística do trabalho foi convidado o violoncelista francês Vincent Ségal, que Ceumar conheceu na internet. Ela assistiu a um vídeo de uma apresentação dele com o maliano Ballaké Sissoko improvisando “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga: “Esse é um som que eu queria fazer”. Depois de cinco dias de ensaio, o disco foi gravado em outros cinco dias Na Cena Estúdio, em São Paulo.

Em entrevista ao Álbum, Ceumar comenta seu novo trabalho, disponível para download em seu site.

ÁLBUM – Como se deu o processo de produção do disco?
CEUMAR – Eu estava na Holanda em uma fase de perceber qual seria o meu próximo passo. Já fazia um ano e meio que eu tinha me mudado, tinha feito um disco lá com os holandeses, mas era com releituras, não tinha nenhuma música novíssima. O último disco era de 2009. Ali era 2010, 2011, na Holanda, com uma vontade imensa de aprender um monte de novidades. Mas, ao mesmo tempo, estava dando um tempo para mim, um tempo de silêncio. Comecei a elaborar alguma coisa, já tinha a “Justo”, parceria minha com Tata Fernandes e Kléber Albuquerque. Já tinha tentado gravar, mas não tinha acontecido. Já tinha a “Chora, Cavaquinho”, que fiz com o Sérgio Pererê, depois foram chegando outras músicas. “Turbilhão” foi quando o Edilberto foi para Amsterdã. O Vitor Ramil também teve uma passagem por Amsterdã, e eu pedi para gravar “Quem É Ninguém”. Ela não é inédita, já foi gravada pela Gisele de Santi. Eu disse que iria fazer um arranjo meu, uma viagem própria. Outra que já tinha sido gravada é “Engasga Gato”, do Kiko Dinucci. Sou apaixonada pelo álbum Padê, dele com a Juçara Marçal. Depois que tive a resposta do Proac, em setembro de 2013, começamos a elaborar o repertório.

Como chegou ao nome de Vincent Ségal para a direção musical?
Eu estava um dia zapeando pela internet e vi um vídeo dele tocando “Asa Branca”, com Ballakê Sissoko. Pensei: esse é um som que quero um dia fazer. Um som mais mágico, um pouco mais etéreo, mais lírico. Meu marido fez o contato, disse que eu queria fazer um trabalho com ele. E ele foi superaberto. Nós fomos de trem a Paris e nos encontramos. Ele conhece o Brasil, fala português. Eu o convidei para fazer a direção musical. Primeiro porque ele ama o Brasil e segundo porque eu queria trabalhar esse som mágico através do cello. Ele foi elaborando os arranjos… Trabalhou com o Ari Colares na percussão, foi pontual com todos. Tudo parte um pouco do violão. Para cada música a gente tinha uma ideia de instrumentação. Convidei amigos e músicos que conheço. Ele conhecia o Zé Pitoco de outros momentos. Confiou na minha escolha. Fizemos aqui em dezembro cinco dias de ensaios e cinco dias de gravações. E eu amei.

Qual é o conceito que permeia o álbum?
Essas músicas refletem um pouco um momento da vida, refletem coisas que estou experimentando, uma situação de estrangeira dentro de uma país novo… Não acho que é um disco de festa! Estou celebrando a vida, os encontros, mas é um disco muito mais para dentro, de descobertas, mais para dentro do ser. Acho que tem a ver com todo mundo. As pessoas param um pouco de pensar nesses assuntos, e eu tive tempo de visitar isto: O que é ser justo? O que é ter justiça? O rio da minha cidade, vejo a preocupação com esse rio… Ele está mais baixo, já faz uns dois anos que o verão é muito seco. As nascentes estão secando. Mas isso já é um problema de desmatamento. Tem uma ONG na minha cidade fazendo esse trabalho de fechar as nascentes, proteger as minas d’água. Tem um boom de produtores de ovos na minha cidade. É uma briga, mas a gente não quer transformar isso em uma guerra. As ONGs estão com a música lá, trabalhando nas escolas da cidade.

E as gravações? O disco foi gravado ao vivo em estúdio, certo?
A gente não tinha um retorno amplificado na nossa sala. O [Ricardo] Mosca ouvia na cabine, mas a gente não tinha fones de ouvido. Isso faz com que a dinâmica seja diferente. Cada música tem uma intensidade, eles tinham de me ouvir. Para mim foi bem novo. Sem o fone dá um medinho. Como vai ser? A gente vai se ouvir? Claro, tem toda aquela dinâmica do ao vivo. Não tem um bit que você vai acompanhando. Podemos até pensar que é uma tendência. As pessoas estão um pouco cansadas de tanta tecnologia, é uma coisa boa sair um pouco desse ambiente muito tecnológico atual.

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