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“A vida em seus métodos diz calma”

Di Melo relembra seu disco de 1975 e fala do futuro

texto Itamar Dantas

Di Melo: um disco de carreira bastou para registrar seu nome na soul music nacional. Foto: divulgação

Como um prenúncio do rumo que tomaria sua vida, Di Melo profetizava em seu primeiro, e único, disco (Di Melo, 1975, Odeon) que é preciso ter calma para alcançar seus objetivos. A música “A Vida em seus Métodos Diz Calma” alcançou relativo sucesso entre outras que integravam o trabalho, como “Kilariô” e “Se o Mundo Acabasse em Mel”. Entre o fim dos anos 1960 e meados de 1970, tocava em bares e casas de shows de São Paulo e ainda emplacava outras composições suas em discos de artistas de renome nacional, como os de Wando.

O sucesso do álbum, no entanto, não foi suficiente para manter o artista pernambucano no circuito musical paulistano. Chateado com a baixa remuneração de seu trabalho entre shows e royalties de suas composições, partiu para o litoral paulista, onde morou e tocou por muito tempo em bares, restaurantes e casas noturnas. “Se eu parei foi por algumas questões minhas. Na vida, nem tudo é glória. Tinha música minha num disco do Wando [Wando, 1975, Beverly], daquele que tinha a música ‘Moça, me espere amanhã’. No primeiro trimestre foram 28 milhões de cruzeiros referentes às cópias vendidas. Fui receber direitos autorais: 11 cruzeiros. Aí você diz ‘Puta que o pariu! O que estou fazendo aqui?’ ”, desabafa o cantor.

Di Melo e os Marretas, com quem o cantor se apresentou no Auditório Ibirapuera. Foto: divulgação

Foram 35 anos sem que Di Melo aparecesse na mídia. Continuou cantando entre o litoral paulista e o Recife. Enquanto isso, seu disco rodava o mundo passando pelas mãos de colecionadores e DJs como um dos marcos da black music brasileira. Mas ninguém sabia por onde andava o compositor. Rodava o boato de que ele havia morrido em um acidente de moto. Mas um jargão do compositor, “Nada é impodível para Di Melo”, inspiraria a sua posterior alcunha: “imorrível”. É com ela que o músico agora se apresenta, depois de ter sido resgatado do anonimato pelo documentário Di Melo, o Imorrível, dirigido por Alan Oliveira e Rubens Pássaro e lançado em 2011.

De volta, o músico se juntou a uma banda e tocou na Virada Cultural de 2011. No entanto, o projeto com os novos parceiros não deu certo. E, em 2013, Di Melo se une a outro grupo, composto de sete jovens músicos da banda Charlie e os Marretas. Com a nova formação, tem se apresentado por aí, com canções que contemplam crias de seu álbum de estreia e outras inéditas, de seu aguardado segundo disco, previsto para o ano que vem. Na sexta-feira, 12 de julho, o cantor mostrou o resultado de sua nova atividade no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.

A banda Charlie e os Marretas é formada por Charles Tixier (bateria e voz), André Vac (guitarra e voz), Tomas de Souza (teclados e voz), Guilherme Giraldi (baixo), Gabriel Basile (percussão), Rafael Molina (sax alto e voz) e Vinicius Chagas (sax tenor).

Em entrevista ao Álbum, o cantor fala do período em que ficou longe dos holofotes, dos motivos que o levaram a se afastar de São Paulo e de suas aventuras mundo afora.

ÁLBUM Como você chegou a São Paulo?
DI MELO – Na primeira vez, vim com um amigo, que me levou na Odeon, em 1968. Os caras gostaram. Eu que não me senti muito à vontade porque eu era um cara mais praieiro. Voltei para Pernambuco porque me senti um peixe fora d’água. Aí amadureci. Aquela velha história: aprimore-se e emancipe-se. Voltei no início da década de 1970 já com indicação do Jorge Ben e com um cartão do empresário Roberto Colossi, que empresariava todo mundo, mas que depois passou a empresariar somente o Jô Soares. Eu me apresentei para o Colossi, que foi muito solícito e me arrumou umas coisas para fazer, umas turnês das gravadoras. Comecei a tocar na noite. Toquei no Jogral, Lei Seca, Chopp Chocolate Show, Janela para o Mundo, Balacobaco, Telecoteco, Penicilina, Lapinha, Igrejinha. Essas casas que mandavam na época. Aí a Alaíde Costa levou o Moacir Medina Machado, diretor da EMI-Odeon, no Jogral. Ele me viu tocar, gostou e me contratou. Eu já tinha ido para o Japão, fiquei um ano e meio. Ia para ficar três meses, mas aí descobri um esquema, vinha, carimbava o passaporte e voltava. Trabalhei lá com música. Depois fui para a França e para a Alemanha. Eu namorava uma francesa na época.

E como chegou aos músicos para o disco de 1975? Hermeto Pascoal, Heraldo do Monte, Cláudio Bertrame…
Algumas músicas desse disco foram feitas no Leblon e outras aqui [em São Paulo]. O meu editor, Waldemar Marchetti, o Corisco, foi o arregimentador do disco. Ele fez o contato com Hermeto, Heraldo, Bertrame, Capitão, Bolão, Luís Melo e um cara que tocava com o Astor Piazzola, que eu não lembro o nome.

Por que você se afastou do meio musical paulistano?
Se eu parei foi por algumas questões minhas. Na vida, nem tudo é glória. Tinha música minha num disco do Wando, daquele que tinha a música “Moça, me espere amanhã”. No primeiro trimestre foram 28 milhões de cruzeiros referentes às cópias vendidas. Fui receber direitos autorais: 11 cruzeiros. Aí você diz ‘Puta que o pariu! O que estou fazendo aqui?’. Fui embora para a praia. Fui para o Recife ficar oito dias, e fiquei dez meses. Trabalhei com música durante todo o tempo. Trabalhei durante dez anos cantando música italiana numa cantina chamada Gamorra. Toquei com o Geraldo Vandré. Fomos para a Paraíba, para o Paraguai.

Você sabia do sucesso do seu disco fora do Brasil?
Teve essa história do Black Eyed Peas [o álbum de Di Melo aparece no clipe da música Don't Stop the Party, da banda norte-americana]. Estou mandando um disco para eles. Tem uns caras lá fora que samplearam “Pernalonga” e “Se o Mundo Acabasse em Mel”. E gente que vende o disco assim de pancada. Tem uma coletânea, com Simonal, Jorge Ben, Elza Soares, rodando o mundo. E o Di Melo está no meio desses buchichos todos. Na Holanda, encontrei o disco por 500 euros. Um amigo me disse: ‘Di Melo, meu irmão, seu disco vende muito, toca nas rádios’. E eu estou em uma coletânea da Blue Note, que é uma das gravadoras mais poderosas do mundo. Dizem que o cara mais fraquinho dessa gravadora é o Bob McFerrin.

E os próximos passos?
Estou preparando um livro e um disco para o Recife. Estou também com uma nova banda porque a outra não deu certo. E agora o Di Melo está caminhando legal. E aí o filme veio assim dar uma linkada legal e um gancho para toda essa coisa. Ele já está no nono prêmio, ganhou em Gramado, ganhou legenda e foi para o Canal Brasil. Também tem essa minha filha, que faz com que eu crie forças para seguir adiante. E mais essa figura aqui [aponta para a esposa, Jô Abade] que faz papinha de aveia e é doida por mim. E agora ela já tomou os meus cartões de crédito.

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