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“A música de viola é um movimento como a tropicália, o Clube da Esquina”

Levi Ramiro fala de seus mais recentes projetos e da falta de visibilidade da música de viola

texto Itamar Dantas    |   fotos Divulgação

Levi Ramiro é violeiro, compositor, artesão. Paulista da cidade de Uru, tem a viola caipira como instrumento principal desde 1995, quando trocou as seis cordas do violão pelas dez da viola (em sua versão mais comum, as violas têm dez cordas dispostas em cinco pares, apesar de haver muitas versões desse instrumento).

Em 2016, o músico lançou seu nono disco, Purunga, com composições próprias recolhidas ao longo dos últimos anos. A cabaça-purunga dá nome à obra e é a matéria-prima dos instrumentos que Levi fabricou para tocar no disco. Com ela criou pelo menos 17 instrumentos, entre os quais violão, bandolim, xequerê, pambaça, lapsteel, agogô, baixo requinto e violão barítono. Tirou a maioria dos timbres desses instrumentos, incluiu também outros de sua autoria, como sua violeta de madeira escavada, e alguns que chegaram trazidos por amigos, como o vaso de cerâmica de João Arruda, o calabash de André Rass vindo do Mali, o pandeiro de Paulinho do Pandeiro e os chocalhos fabricados por Thoshiro.

Não que seja uma obra solitária, na qual Levi gravou tudo por conta própria. Vários amigos, músicos de renome, trabalharam com ele. Giovanni Guimarães, Consuelo de Paula, Paulinho Faria, Thomas Rohrer, João Bá, João Arruda, Nanah Correia, Manu Saggioro, Cláudio Lacerda, Andre Rass, Ricardo Vignini, Paulinho do Pandeiro, Magrão, Norberto Motta, Fabrício Conde, Zé Esmerindo, Aidê Fernandes e até uma orquestra de pássaros e uma seriema integram o disco.

Atualmente, o músico atua como anfitrião no Circuito Paulista de Viola Instrumental, promovendo encontros entre violeiros do interior paulista e tocando em uma série de shows, com música, prosas e causos circulando por diversas cidades paulistas. Em entrevista ao Itaú Cultural, Levi fala de seus últimos projetos, da cena da música de viola atual e de suas impressões sobre a mídia e o público da cultura rural brasileira.

Como se deu a ideia do Purunga e da criação dos instrumentos?
O meu despertar para a construção de instrumentos foi sempre de uma coisa mais livre, nada de uma coisa muito acadêmica, de luthier. Eu me considero muito mais um artesão do que um luthier. A primeira vez que vi um instrumento de cabaça foi num livro do Roberto Corrêa [Viola Caipira]. Depois vi uma viola em algum lugar. Nessa época eu já estava fazendo uns instrumentos diferentes, fiz 40 instrumentos escavados, de uma peça só. Para os de cabaça, precisei criar algumas coisas, aprender a tratar a cabaça para ela não estragar, por exemplo. Eu desenvolvi uma travessa para dar sustentação às cordas. O violão é um instrumento mais padronizado do que a viola. A viola tem vários tamanhos, afinações.

Gostei de fazer para esse disco muita variedade de cordofones; além dos instrumentos de percussão, que são mais simples, fiz bandolim, baixo, rabeca… Eu entreguei o bandolim na mão de um bandolinista amigo meu e ele ficou impressionado. Quando fui fazer o baixo, examinei um baixo bom, olhei as medidas, para ter um referência na hora de construir o meu. O violão tem um timbre anasalado. Com esse material é mais difícil conquistar os graves, então tive de usar cabaças maiores, fazer um tratamento nelas para conseguir alcançar o som. Um exemplo é um leque em “X” que eu desenvolvi. Não é uma travessa convencional. Ela é em “X”, um pouco mais fina, dá mais soltura no tampo. Eu comparo a viola, esse instrumento despadronizado, até com o povo brasileiro – a riqueza está na diferença desses tipos de som. O Brasil é muito grande e em cada lugar você tem uma característica da viola; e ele como país é do mesmo jeito, é a diversidade do nosso povo que faz com que a nossa cultura seja tão rica.

Você compôs as músicas já com os instrumentos prontos? Ou pegou composições que já tinha para trabalhá-las com os instrumentos que fabricou?
Eu já tinha as músicas. Em Trilha dos Coroados [lançado em 2009] eu trabalhei com um disco mais temático, que tratava dos bugreiros que construíram o trecho paulista da estrada de ferro e promoveram um genocídio contra os indígenas Kaingang, conhecidos como “coroados”. Já no Purunga, peguei músicas do meu repertório. Tinha músicas com instrumentos mais percussivos, outras com foco nas cordas – eu juntei o repertório e preparei o disco.

Como você vê o público da música caipira e dos violeiros atualmente?
Existe um público bem variado. Tem aquele público mais velho, que gosta de ouvir os sucessos dos tempos dele; tem um público novo dos meninos tocando música raiz, na linha de Tião Carreiro e Pardinho; e o pessoal da minha geração, um grupo que trabalha, que consegue espaço fazendo um trabalho mais de vanguarda, de composição mesmo, em cima da cultura popular. Paulo Freire, Chico Lobo, Wilson Dias, Roberto Corrêa, Arnaldo Freitas, Júlio Santin, Ivan Vilela e João Paulo Amaral, levando para uma área mais acadêmica, e todos nós conseguindo espaço para trabalhar.

Tem um pessoal novo chegando também. Existe um caminho tradicional que foi criado que leva o caipira da roça para o rodeio, mas tem um entroncamento do caminho que é onde a gente está. O que falta na mídia é uma questão de observar essa música nova que está aparecendo. Não tem problema nenhum falar sobre o Cartola, por exemplo, é maravilhoso. Mas não existe só ele. A mídia tem de abrir espaço para quem está produzindo coisas novas agora também. O Matuto Moderno, por exemplo… Eles deveriam ter peso igual a um Nação Zumbi do Chico Science. Eles fizeram a mesma coisa, só que se utilizando da cultura caipira.

A gente produz essa música que vem das tradições rurais, da cultura popular. A gente consegue espaço no Sesc, um sistema que faz o maior projeto de formação de público do país, de que eu já participei muitas vezes, rodei o Brasil com a caravana do Sesc, mas só ele não é suficiente. Acho que existe uma produção de música de viola que é um movimento, é como se fosse uma tropicália, um Clube da Esquina – a gente só não tem mídia.

Ao seu ver, como anda a música de viola ao redor do país?
Existem projetos como o que a Kátya Teixeira realizou, o Dandô. Aqui em São Paulo tem o Matuto Moderno; o outro projeto do Ricardo Vignini e do Zé Helder [Moda de Rock, que apresenta clássicos do rock adaptados para a viola], que trazem o público do rock, normalmente bem fechado no estilo dele. Existem as orquestras de viola aqui de São Paulo. No Nordeste, o Hugo Linns, o Caçapa, a Laís de Assis, que eu conheci recentemente. Tem as violeiras, a Adriana Faria, a Juliana [Andrade], que é uma grande violeira da atualidade.

No Sul abriu caminho para a viola, em Caxias tem o Valdir Verona. Tem um rapaz que toca nos CTG’s, o Guine; tem o Ângelo Primon. Existiam alguns festivais, o Syngenta; havia aquele que o Roberto Corrêa e o Paulo Freire criaram, o Voa Viola. Existe um movimento natural de violeiros no Brasil. A viola é um movimento no Brasil. Os estilos são muito diversos. Essa é a maior riqueza desse instrumento.

A que você atribui esse desinteresse pela cultura rural que você citou?
O povo brasileiro parece que tem nojo do caipira, do que é caipira. Existe até hoje aquela imagem do Jeca Tatu [personagem de Monteiro Lobato publicado em 1914, que dava ao homem rural brasileiro características como pobre, ignorante e avesso à higiene]. É um desvio. Acho que a gente também colabora não explicando direito que buscamos a referência do nosso trabalho em cima de coisa séria. A gente entra na cultura popular com profundidade para fazer o nosso trabalho. A gente é responsável por essa desinformação toda também. Quando vamos tocar e a pessoa pede uma moda de viola, a gente tem de explicar que pode até ter moda de viola, mas moda de viola é só um dos tipos de música que pode ser feita a partir da viola. Se a gente não explica, se deixa o outro na ignorância, isso abre caminho para acabar com a diversidade.

E qual é o caminho que você enxerga para essa situação?
A gente precisa da exposição do nosso trabalho para marcar a geração futura. A gente fica no ostracismo e não tem a chance de marcar a geração futura. Quando o Levi e o Paulo Freire estão fazendo show no Sesc, a gente não está só tocando as nossas músicas. A gente está tocando músicas de acordo com um projeto para a formação de público. A gente cria uma interação, conta causos… Buscamos um repertório lado B, lado C para apresentar aquelas músicas ao público… Mas precisamos ter espaço para apresentar as nossas músicas também.

Eu até fico surpreso quando tem um público que interage bastante com o nosso trabalho autoral. Às vezes acontece. Há pouco tempo fomos tocar num bairro de Paulínia [SP], em um lugar bem carente de informação, mas ficou todo mundo sentadinho, tocamos clássicos, músicas nossas, veio gente comentar comigo que conhecia música minha. Não existe um olhar do povo ou da mídia para esse trabalho mais novo que a gente faz. O meu trabalho principal é compor. Eu toco também, faço show, mas sou compositor e preciso de espaço para apresentar o meu trabalho. Existe uma possibilidade, é só a gente ter oportunidade…

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