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A moda e o comportamento na jovem guarda

Roberto Carlos tenta impedir circulação de livro com foco na jovem guarda

texto Itamar Dantas

Erasmo Carlos (esq.), Wanderléa e Roberto Carlos no auge da jovem guarda. Ao lado, capa da revista Realidade, de 1966. Foto: reprodução

Em 1979, Roberto Carlos dava os primeiros indícios de que não gostaria de ter sua vida íntima revelada em biografias não autorizadas. O livro O Rei e Eu, de seu mordomo Nicholas Mariano, foi retirado das lojas naquele ano. História que se repetiria em dezembro de 2006, quando o escritor Paulo César Araújo lançou a biografia Roberto Carlos em Detalhes (editora Planeta) e recebeu um pedido judicial do cantor para que sua obra fosse retirada de circulação – fato que realmente aconteceu em abril de 2007. Polêmica, a decisão da Justiça alimentou, e ainda alimenta, intenso debate a respeito da autorização para a publicação de biografias, estejam elas em livro ou em filmes.

E eis que em 2013 a história se repete. Os advogados do Rei enviaram notificação para Maíra Zimmermann, autora do livro Jovem Guarda: Moda, Música e Juventude, pedindo que a obra fosse retirada de circulação por conter detalhes da vida íntima de Roberto Carlos, além de desenhos na capa e no interior do livro, que fariam uso indevido da imagem do cantor. O livro é fruto da tese de mestrado de Maíra para o curso de moda, cultura e arte do Senac e foi lançado pela editora Estação das Letras e Cores. Na obra, a autora identifica as transformações comportamentais da juventude trazidas com a criação da jovem guarda e as repercussões sociais dos novos modelos. Os advogados da autora e da editora do livro enviaram uma contranotificação aos advogados do cantor e eles buscam um desfecho para o caso.

O livro

Mulheres de minissaias e calças compridas; homens com os cabelos longos e preocupados com a aparência, usando pulseiras, anéis e artigos de luxo para incrementar o visual. E, guiando tudo isso, um estilo de música dançante que chegava para balançar os corpos adolescentes. Era o rock and roll se difundindo e consolidando mundo afora no decorrer dos anos 1950.

Celly Campello e Sérgio Murilo foram alguns dos precursores do rock and roll no Brasil. Mas foi com a jovem guarda que esse estilo musical ecoou mais fortemente por aqui. A tradução de músicas estrangeiras que estavam no topo das paradas fez sucesso no país – ainda que o estilo bem-comportado dos músicos que participavam do movimento não tivesse muito a ver com o jeito rebelde que o rock espalhava pelo mundo.

Os ícones da jovem guarda vieram em seguida. Na cabeça do movimento, estavam Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, os principais retratados no livro. Diferentemente dos seus predecessores, eles eram mais ousados, com cabelos compridos, roupas coloridas. A jovem guarda era uma importação dos modelos propagados na Inglaterra e nos Estados Unidos por bandas como Beatles e Rolling Stones, Elvis Presley e Chuck Berry. “Essa nova forma de se vestir, de se comportar, de falar as próprias gírias; isso vai trazer um diálogo muito grande dentro das famílias. Você imagina? As meninas usando minissaia e saindo de casa para dançar rock? Com toda aquela euforia com os ídolos e tudo mais… Os pais achavam que elas iam engravidar nos shows”, conta Maíra.

Em um período pós-guerra, o pensamento conservador era de que o rock and roll, esse movimento de criação identitária com a juventude, acabaria com as famílias. Enquanto gerava discórdias e mudanças dentro das casas, a indústria não parava de lançar produtos para a galera, entre roupas, bonecos dos cantores, discos e inúmeras outras bugigangas ligadas ao movimento. “A ideia de explorar o movimento da jovem guarda veio ao analisar a figura dos Beatles e seu sucesso. Nenhum deles era músico gênio, como é que eles alcançaram tanto sucesso? Fãs desmaiando por causa deles… Esse impacto e a questão da família… As fogueiras que queimavam discos dos Beatles… E como isso aconteceu no Brasil? Será que foi assim? Teve uma jovemguardamania. A própria Realidade, uma revista superséria, põe uma foto, ‘Roberto Carlos: a Rebelião da Juventude’. Até os anos 1950, homem só vestia terno e mulher saias compridas”, conta Maíra.

Um momento que demonstra claramente a influência de Roberto Carlos e seus novos modos de se vestir e comportar é narrado na participação de Roberto Carlos no programa Quem Tem Medo da Verdade, apresentado por Carlos Manga, em que celebridades eram “julgadas” por figuras do meio artístico. Na ocasião, uma das defesas foi feita por Sílvio Santos: “Roberto Carlos fez com que a juventude usasse colares, medalhões, anéis. Usasse o amarelo, o vermelho, o azul, e disseram até que essa juventude, por causa de Roberto Carlos, estava se desmasculinizando, estava afeminada. Desde quando as roupas, os colares, os anéis desmasculinizam o homem?”, questiona Sílvio.

O programa de TV Jovem Guarda esteve no ar entre os anos de 1965 e 1968, apresentado por Roberto, Erasmo e Wanderléa. Maíra argumenta que o próprio tropicalismo, que teve início no ano em que terminava a jovem guarda, bebeu nas fontes dos cabeludos roqueiros. Ela defende que a importância da jovem guarda para a cultura brasileira ainda é inestimada por ter sido um movimento criado pela indústria, baseado na importação de elementos estrangeiros. Porém, quando o movimento chega ao Brasil toma novas formas e ganha contornos únicos, relacionados à cultura e ao momento social do país. “Acho que a jovem guarda precisa ser discutida mesmo. Muita gente me diz: ‘Ah, mas a Jovem Guarda era meio alienada’. Mesmo quem viveu o período não consegue entender a importância daquilo. Não quero dizer que ela não foi um produto. Mas ela foi além das elites. Os cantores não vinham das elites cariocas como os da bossa nova. Eles eram de um grupo das camadas mais populares. O impacto foi muito grande, com destaque nacional”, garante a pesquisadora.

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