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A malícia e o jazz do choro carioca

Em Rio, Choro, Jazz... Antonio Adolfo revisita obra de Ernesto Nazareth e lança música em sua homenagem

texto Itamar Dantas

Em novo álbum, Antonio Adolfo aproxima obra de Ernesto Nazareth do universo do jazz. Foto: Alexandre Moreira

Antonio Adolfo continua nos Estados Unidos, onde mora desde 2007, mas sua música vem flertar com as tradições do Brasil. Em seu álbum Finas Misturas, de 2013, o músico reuniu seus diálogos com o jazz e o baião, o calango, a toada e a quadrilha. Já em 2014, em seu disco Rio, Choro, Jazz…, o pianista mira os choros e as valsas de Ernesto Nazareth (1863-1934), colega de instrumento e um dos responsáveis pela cristalização do choro como gênero musical.

O contato com a música de Nazareth veio ainda criança, quando ouvia seus temas nos saraus realizados pela mãe em sua casa. Em 1981, já apresentava sua visão da obra do compositor chorão no álbum Pianeiros – Antonio Adolfo Abraça Ernesto Nazareth. No novo trabalho, o músico fez releituras mais livres da obra de Nazareth, erguendo uma ponte com o jazz.

Confira abaixo a entrevista exclusiva cedida ao Álbum Itaú Cultural.

LEIA TAMBÉM: O JAZZ COM BAIÃO DE ANTONIO ADOLFO

ÁLBUM – Quando e como se deu seu primeiro contato com a obra de Ernesto Nazareth?
ANTONIO ADOLFO – Acho que o primeiro contato que tive com a música de Ernesto Nazareth foi nos saraus que minha mãe (violinista da Orquestra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro) fazia lá em casa quando eu era ainda um menino de 7 ou 8 anos de idade. Os seus colegas iam tocar, e tocavam também muitas músicas de compositores brasileiros. Só não rolava muita, que eu lembre, percussão – pode ser até que sim –, mas  havia piano, violino, cellos, contrabaixo, flauta… Depois, já na adolescência, lembro muito bem de ter ouvido músicas de Nazareth, como “Apanhei-te Cavaquinho”, “Odeon”, “Brejeiro” e as valsas.

Em Os Pianeiros (1981) você revisitou o repertório do compositor. O que muda neste novo projeto?
Em 1981, com o disco Os Pianeiros – Antonio Adolfo Abraça Ernesto Nazareth, resolvi gravar as músicas de Nazareth no estúdio da Polygram, trocando o aluguel do estúdio por arranjos que fazia para eles (gravadora) e para muita gente da MPB. E resolvi dar um enfoque mais solto em relação ao que se costumava ouvir até então, seja por meio dos pianistas que tocavam clássico e também Nazareth, seja por meio dos grupos tradicionais de choro que tocavam algumas, não muitas, obras do mestre. E resolvi chamar meus amigos e colegas de outras gravações, como Dino 7 Cordas, Jorginho do Pandeiro, Oberdan Magalhães, Ernesto (baixo), Claudio Jorge (violão), Jaquinho Morelenbaum (cello) e Zé Luiz Mazzioti (voz, em “Bambino”). Mexi um pouco nas harmonias, andamentos, e coloquei meu estilo de tocar e de arranjar, mas com certa parcimônia, que veio a cair por terra. Depois da gravação do disco de 1981, eu tocava as músicas de Nazareth em shows, principalmente quando as apresentava em solo (piano), pois tinha total liberdade para ir pela frase musical em vez de seguir uma métrica (compasso) preestabelecida, como normalmente se toca na música popular em geral. Passei a perceber também que podia improvisar bem mais solto, inventar ritmos, mudar formas em vez de utilizar as tradicionais (AABACA) tão usadas nos choros em geral. Coloquei acordes com extensões (tipo acorde que se usa em jazz ou bossa). Enfim, criando outro Nazareth, recriando Nazareth, assim como comecei a fazer também com outros compositores da época, como Chiquinha Gonzaga, João Pernambuco e mesmo Jacob do Bandolim. O desafio mesmo pintou quando fui convidado para participar da série do CCBB de Belo Horizonte no final do ano passado com o Projeto Ernesto Nazareth 150 anos Depois, em que o Mario de Aratanha sugeriu que eu apresentasse Nazareth com jazz. Foi então que me debrucei durante uns três meses tentando traduzir o que eu já fazia em solo Deu trabalho, mas deu certo. Os músicos Jorge Helder (contrabaixo) e Rafael Barata (bateria) são brilhantes e isso ajudou muito, pois entenderam com apenas um ensaio tudo o que eu estava querendo apresentar. O show serviu para amadurecer o projeto para um disco, que gravei logo em seguida. O que fiz foi expandir a orquestração, utilizando violão/guitarra, percussão e flauta/sax soprano. E fomos para um estúdio muito bom no Rio (Tambor) e gravamos todo o disco em quatro dias. Depois, foram só alguns arremates.

No álbum você homenageia Nazareth com uma composição sua. O que sua composição apresenta em relação à obra do homenageado?
No show queria fazer uma homenagem a Ernesto Nazareth com uma música minha e acrescentei essa, que veio a se chamar “Rio, Choro, Jazz…”, pois carrega a malícia do choro carioca (e da música brasileira em geral), misturada com o jazz, com o qual sou de certa forma familiar desde os tempos do Beco das Garrafas em Copacabana, no Rio, nos anos 1960.

Qual é o legado de Nazareth para a música brasileira?
Nazareth, Pixinguinha e Tom Jobim compõem o trio dos grandes compositores brasileiros em termos de qualidade/quantidade da obra. São três gênios, cada um no seu estilo. Nazareth trouxe grande contribuição ao que veio se chamar de piano brasileiro. É claro que têm outros compositores pianistas brasileiros excelentes, mas sua contribuição, como disse, em termos de qualidade e quantidade é inigualável. É linda a sua música!

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