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“A improvisação está mais para o circo do que para a música”

Júnior Areia, baixista da Mundo Livre S/A, fala sobre seu disco solo Para Perdedores

texto Patrícia Colombo

Capa do segundo disco individual do Areia, baixista da Mundo Livre S/A. Foto: divulgação

Após dez anos sem um trabalho de músicas inéditas em sua carreira solo, Júnior Areia, também conhecido como o baixista do Mundo Livre S/A, intercalou os ofícios da banda recifense para se dedicar ao disco Para Perdedores, lançado no final de 2011. O projeto elaborado pelo quarteto de música instrumental Areia e Grupo de Música Aberta reúne quatro temas que trazem na bagagem as influências do baixista e sua conexão com as músicas portuguesa e afro-brasileira.

O disco foi gravado no estúdio Muzak, no Recife, e conta com o saxofonista Ivan do Espírito Santo (Orquestra Contemporânea de Olinda), o acordeonista Julio Cesar (Arabiando) e o baterista Cássio Cunha (Alceu Valença e Duna). Em entrevista ao Álbum, Areia fala sobre como o projeto nasceu e se desenvolveu e explica o conceito de Música Aberta que, em sua opinião, se difere de outros relacionados à produção instrumental brasileira. Leia abaixo:

Álbum – Este é seu primeiro álbum solo em dez anos. Por que um intervalo de tempo tão grande?
Areia -
 Não foi uma coisa intencional. Depois do lançamento do meu primeiro álbum – A Décima Lua – fui morar nos Estados Unidos com a família; era o momento de me estabelecer como músico num mercado novo, e não sobrava energia para pensar em produzir uma coisa minha. Em contrapartida, também achava que não deveria repetir a fórmula para um segundo trabalho. Nesse mundo novo em que vivemos, com esse excesso de informação, não é fácil achar algo em que se acredite de verdade, por isso demorou a sair o Para Perdedores, que traz um conceito chamado “Música Aberta”.

O que é esse conceito?
O conceito de “Música Aberta” foi inspirado pela observação de que, em algumas formas de música oriental, a improvisação se dá por etapas, assim como na poesia do cantador nordestino. Existe o mote e as pessoas “brincam” com ele. E, no final de cada improviso, o reapresentam. Essa é uma forma ancestral de improviso. Quando fiz essa ligação intelectual, fiquei curioso para saber como soaria na prática; achei que seria uma forma legal de aplicar o improviso à minha música que, até o momento, era fechada em termos de arranjo. Daí veio a ideia do nome: “Música Aberta”.

Como se deu a parceria com esses artistas que integram o projeto?
Na verdade o grupo foi criado por mim. A parceria, a meu ver, vem de uma relação de respeito que temos um pelo outro, mas pela música, principalmente. Eu tenho a mania de observar os músicos com quem toco ao longo da vida. Então, quando aparece a oportunidade de fazer um certo tipo de trabalho, sei mais ou menos quem eu posso convidar. Portanto, não tive dúvidas quando pensei em Ivan do Espírito Santo e Julio Cesar para compor esse grupo. E uma das coisas que me deixou muito feliz foi a oportunidade de voltar a tocar com meu primo, o Cássio Cunha. Fazia uns 20 anos que não tínhamos essa oportunidade (ele mora no Rio de Janeiro), e eu sabia que aquela parceria musical ainda existia.

Quando começou a trabalhar o disco?
Fica difícil mensurar quando eu tive certeza de que o álbum seria dessa forma. Acredito que as coisas foram se apresentando e eu fui aproveitando, mas lembro bem que fiquei com vontade de fazer uma música que trabalhasse o improviso, pois no primeiro CD eu tinha exercitado um lado mais canção, uma música bem fechada no sentido de arranjo. Aí pensei que, no segundo álbum, eu poderia abrir mais para a participação dos músicos que estariam tocando comigo e, ao mesmo tempo, ir de encontro a um sentimento que tinha sobre a música improvisada contemporânea – que é muito repetitiva, mais um exercício de ego [dos músicos] do que uma contribuição para a música em si. Acredito que a improvisação é um recurso maravilhoso por deixar o músico totalmente exposto para o público. E isso deveria ser interessante para quem assiste; o problema é que a arte de improvisar foi institucionalizada, e muitos músicos se restringem a tocar as frases prontas que estudaram. Isso está mais para circo do que para música. Daí veio essa tentativa de desenvolver o conceito de “Música Aberta”.

Quais as influências do disco? Como você o enxerga?
Foram dois caminhos distintos que se encontraram lá na frente. Um veio da minha vivência como compositor e toda a bagagem harmônica, melódica e rítmica que carrego, da minha formação como pessoa e músico, das minhas influências básicas das músicas portuguesa e afro-brasileira. O outro vem da observação do cenário criativo contemporâneo, de pessoas como Carlos Paredes, Cachao López, Astor Piazzolla ou Charles Mingus, que são músicos que mudaram o rumo das coisas, tudo isso junto e misturado.

O material foi todo gravado ao vivo. Acha que essa experiência torna o registro mais genuíno?
Não acho que seja uma questão de ser genuíno. Nesse caso acredito que foi a melhor coisa a ser feita; não tinha como haver essa conversa musical sem que a gente estivesse se vendo. Na “Música Aberta” todos são regentes, o tempo todo. E como não iríamos fazer edição, até porque não existiu nenhum tipo de guia, acho que essa foi uma decisão acertada.

O disco tem apenas quatro músicas. Por que não algo mais longo?
Nós gravamos cinco temas, mas na hora de pensar em um formato para lançar, achei que o tempo de 43 minutos seria suficiente para música inédita, as músicas são muito longas… Mas não foi nada planejado, apenas senti dessa forma. As composições que entraram são de várias épocas e sentimentos.

Quais os outros planos para sua carreira solo? Algum outro lançamento previsto em um curto prazo ou os fãs terão de esperar mais dez anos?
Agora acho que peguei o embalo. Depois dos 40 anos o cara “ou vai ou racha” [risos]. O Areia e Grupo de Música Aberta está “de vento em popa” fazendo shows, e também se preparando para gravar um DVD no Recife neste ano ainda. Também tem dois projetos começando, que são, por coincidência, dois trios. Um deles é somente de corda, que estou chamando Terno de Corda – vamos tocar músicas minhas seguindo os passos do A Décima Lua, com a participação de Maíra Macedo (na bandola) e Hugo Linns (na viola). O outro é um projeto internacional, com Steinar Aadnekvan, que é um violonista norueguês, e Erik Lindeborg, pianista sueco. Vamos dividir as composições.

E quanto ao Mundo Livre S/A? Quais os projetos da banda?
O Mundo Livre, na minha opinião, é um fenômeno. Há tantos anos na estrada e cada vez tocando mais – inclusive, acabamos de ganhar o prêmio de melhor grupo brasileiro pelo 23º Prêmio de Música Brasileira. Lançamos um novo álbum (Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa, 2011) e acredito que, até o fim do ano, iremos começar a produzir um DVD. Os coroas não param [risos]!

Veja abaixo o making of da gravação do disco Para Perdedores:

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