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A hora e a vez de Tribo Massáhi – Estrelando Embaixador

A história do obscuro disco de música afro que se tornou mito entre pesquisadores

texto Itamar Dantas

Tribo Massáhi, disco de 1971 que mistura pop com elementos africanos encantou colecionadores. Foto: reprodução

Tribo Massáhi – Estrelando Embaixador, LP que se tornou lenda entre colecionadores de discos e pesquisadores de música brasileira. O álbum de 1971 que misturava música pop e ritmos africanos é hoje um dos mais caros do Brasil. Suas pouquíssimas cópias conhecidas são vendidas a preços estratosféricos, que chegam a mais de 7 mil reais  a última venda registrada no eBay pelo site Popsike, em dezembro de 2012, indica o valor de 2.561 dólares, o equivalente a 6.980 reais (cotação em 3 de fevereiro de 2015). O álbum será relançado pela primeira vez de forma oficial pelo selo Goma Gringa ainda em fevereiro e o Álbum apresenta a inédita história de Embaixador e sua Tribo Massáhi, que ganharam os holofotes pela primeira vez 44 anos após a gravação do disco.

As características tanto sonoras quanto estéticas ajudam a consolidar o mito de Tribo Massáhi – Estrelando Embaixador. Ele foi gravado em duas longas faixas contínuas, lado A e lado B, com cerca de 14 minutos de duração cada face, revelando “um ritmo louco e contagiante”, segundo texto do próprio álbum. “Este é um som formado no Brasil, com todos os membros brasileiros. Mas a finalidade é mostrar a música jovem africana, com todas as suas nuances que caracterizam a música do continente negro.”

Outros aspectos chamam atenção. Com ar de ritual, com várias vozes femininas, uma balançada jam session e canções de grande apelo pop, não é difícil imaginar o porquê de o disco ter se tornado lenda. Soma-se a isso o fato de a história do LP nunca ter sido contada. Um dos mistérios que sempre rondaram Tribo Massáhi –Estrelando Embaixador se dá em torno do seu personagem principal. Entre a maioria dos admiradores do vinil, sabia-se apenas que Embaixador participou de um filme com Roberto Carlos (Roberto Carlos em Ritmo de Aventura), que promovia o álbum homônimo de 1968. Embaixador interpreta um vilão que corre atrás do Rei. A participação de Embaixador lhe rendeu ainda a contracapa da fita VHS e do LP, em uma foto em que luta com o galã Roberto em uma de suas participações marcantes na película.

Ruy Ipanema, violonista que conheceu o cantor no início dos anos 1960, e que participou anos mais tarde da gravação do álbum Tribo Massáhi, conta sobre a empolgação de Embaixador em ter participado do filme do Rei. “Cara, eu gostava do Embaixador. Ele ia pro cinema, ficava em frente à bilheteria, mas não entrava. Era para ser reconhecido pelas pessoas quando olhavam para o cartaz: ‘É você?’ Ele ficava todo orgulhoso. Era uma figura…”.

Outro boato famoso sobre Embaixador é que seria irmão de Tony Tornado, fato contestado pelos nomes de batismo de ambos os músicos atores. Embaixador era filho de Geraldo Rosa de Oliveira e Joaquina Rosa de Oliveira, de Minas Gerais. Já Tony Tornado é da família Vianna Gomes, do interior de São Paulo. 

Sebastião Rosa de Oliveira, o Embaixador

Durante a pesquisa sobre Embaixador, seu nome até então desconhecido surgiu em meio a uma conversa com o pesquisador Nei Lopes: “Embaixador? Sim, claro que o conheci… Era um grande amigo o Sebastião!”. Sebastião era a chave que faltava para desvendar a história do cantor.

Sebastião Rosa de Oliveira nasceu em Leopoldina (MG) em 10 de setembro de 1934. Ainda jovem, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro.

Foi ao lado do poeta Solano Trindade que deu os primeiros passos como ator. A estreia na televisão aconteceu no final dos anos 1950, na extinta TV Tupi. Muito desenvolto, logo o músico e ator passou a fazer figurações em programas e arregimentar negros para pequenos bicos na televisão.

O apelido Embaixador veio de sua fluência em outros idiomas. Comunicava-se bem em inglês e arranhava outras línguas. Sempre na noite, Embaixador podia ser constantemente visto no Beco da Fome, em Copacabana. Ali, muitos atores estrangeiros se reuniam em busca de oportunidades de emprego; Embaixador era uma espécie de articulador entre os colegas gringos e a TV. No entanto, era na música que se sentia realizado.

Na segunda metade dos anos 1960, o músico montou a banda que iria imortalizá-lo postumamente: a Tribo Massáhi. Em 1970, fruto de uma de suas inúmeras amizades, conseguiu o estúdio Rio Som para gravar seu disco. Mas tudo teria de ser feito em apenas um dia. Chamou os músicos, combinou o horário e, no dia marcado, todos estavam lá para o registro.

“Foi tudo combinado de última hora. Avisou no fim de semana que tínhamos de ir na quarta-feira para gravar. ‘Apareçam no estúdio na Rua do Senado’. Nunca vi 1 real dessa gravação”, conta Ruy Ipanema, violonista que nos créditos do álbum aparece com o nome Rui Barbosa, seu nome de batismo.

O álbum reuniu composições do próprio Embaixador, de José Prates, Heitor da Costa, Wilson Guimarães e do citado Rui Barbosa. Ruy Ipanema diz que a gravação foi bem improvisada. “Não tinha arranjos com partituras, essas coisas. Era no máximo a cifra e vamos lá! A gravação durou o dia inteiro”, relembra. No estúdio a guitarra foi conduzida por Toninho Mil Acordes. Ruy Ipanema participou de algumas músicas com seu violão. Quem comandou a bateria foi Aladim, músico descrito por Nei Lopes como um excelente instrumentista que tocou em seu disco de 1983. “Identifico nas fotos o excelente baterista Aladim, já falecido, que participou de todas as faixas do LP A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes“, garantiu o pesquisador em entrevista ao Álbum.

>> LEIA O ESPECIAL “A HISTÓRIA ESQUECIDA DE JOSÉ PRATES”

Os membros da banda foram rebatizados em dialeto nagô (o que, inclusive, dificultou as pesquisas relacionadas ao grupo ao longo dos anos). Na gravação do álbum estavam presentes Aymmi, Koffi, Korede, Kolawole, DuroTimi, Omopupa, Iyalode e Abeke. Ainda deram canjas os músicos Lápis (cencerro), Romildo (contrabaixo) e Nathalie (voz).

Depois do registro em estúdio, a banda fez apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo. Na capital fluminense, fizeram temporada na Schnitt, casa noturna do bairro de Botafogo. Quem os abrigou em São Paulo foi a Casaforte, que também recebia à mesma época cantoras como Beth Viana, que já havia estourado com “Meu Guarda-Chuva”. O grupo também chegou a tocar na casa Castelinho, no Rio de Janeiro. “O Toninho na guitarra, eu no contrabaixo e mais um que não lembro o nome com um teclado. Naquela época, a gente gostava de dar um trago naquela erva. Cada vez um ia no morro buscar para os outros”, conta Ruy Ipanema.

E foi em uma de suas visitas ao Morro da Providência para buscar maconha que Ruy foi pego em flagrante. Dali, passou um ano na penitenciária Hélio Gomes. Sua cópia do álbum Tribo Massáhi chegaria à cadeia, entregue por Embaixador. “Ele só foi me visitar uma vez durante o tempo em que estive preso”, conta o músico.

O disco não teve repercussão. Abriu algumas portas a Embaixador e sua trupe, mas sem grande sucesso para o grupo. Uma das oportunidades veio na sequência, com o convite para participar do Festival Internacional da Canção, de 1971. “Embaixador tinha uma visão da cultura negra muito bacana mesmo. Mas em uma época em que as coisas eram difíceis. Numa pequena gravadora acontece de você não ter muita chance. É complicado. Você pegava o seu disco e se virava”, diz o radialista, músico e dançarino Rubem Confete, amigo de Embaixador.

O quase sucesso nos festivais

As atividades da banda continuaram. Em 1971, o grupo participaria do Festival Internacional da Canção defendendo a música “Karany Karanuê”, de autoria de Diana Camargo e José de Assis. Com a possível participação, o grupo começou a ter destaque em jornais.

No entanto, a defesa da música no festival não chegou a se concretizar. O jornal O Globo, de 23 de setembro de 1971, registrou a falta do grupo a um dos ensaios para a apresentação oficial. “A canção ‘Karany Karanuê’, de Diana Camargo e Zé de Assis, deveria ter sido ensaiada pela Tribo Massáhi, porém seus componentes não apareceram e a própria Diana cantou”, relata a publicação. A música acabou defendida por Elson, Myrna e Diana. Foi finalista da competição e acabou registrada em disco no mesmo ano pelos três intérpretes.

Depois de 1972, não há mais informações sobre o grupo Tribo Massáhi em jornais. A banda formada por Embaixador ficou eternizada no LP e em um compacto, gravado em São Paulo com a participação do pianista Luiz Mello. Ainda nesse ano, Embaixador criou o grupo Trio Moenda, que passou a tocar em um hotel no Rio de Janeiro e depois foi enviado para a Filadélfia sob o nome de Brasil Moenda Trio. Lá, o grupo durou apenas seis meses e Embaixador ficou nos Estados Unidos trabalhando como desenhista, outra de suas facetas artísticas.

Em 1985, Embaixador ainda participaria do filme Quilombo, dirigido por Cacá Diegues. Na obra, representou Congo, um dos chefes negros do Quilombo dos Palmares. Em seguida atuaria na série Tenda dos Milagres, da TV Globo, baseada na obra de Jorge Amado, em que interpretou Xangô.

No final dos anos 1980, os trabalhos como ator começaram a rarear e a situação financeira ficou apertada. Sem dinheiro, depois de ter se separado de sua mulher, recorreu a um amigo que o recebeu no Morro do Fubá, onde teve um barraco à sua disposição e uma máquina de silkscreen e de pequenas costuras. Em sua oficina, fazia adesivos, faixas e cortava moldes de roupa.

Nessa época, trabalhou no programa do jornalista e produtor de discos Adelzon Alves, então transmitido diariamente pela Rádio Globo. Mesmo em situação difícil, o músico não parava de construir projetos e trabalhar artisticamente. Em edição do jornal O Globo de 13 de outubro de 1989, o músico falava de seu sonho de construir um mercado de música no Rio de Janeiro. Trabalhava para apresentar seu projeto ao prefeito.

Em 1994, Embaixador foi encaminhado ao Retiro dos Artistas, instituição no Rio de Janeiro que acolhe artistas idosos em dificuldades financeiras. Lá, passou o resto dos dias. Chegou à instituição sem nenhum bem, apenas com as roupas do corpo. Nunca recebeu visitas de familiares. “Estava sempre cantando e contando suas histórias. Embaixador chegou ao Retiro dos Artistas por meio de Francisco Moreno, que era presidente da instituição. Ele era uma pessoa muito alegre. Estava sempre cantando suas músicas, deixou um ambiente muito bom aqui”, conta Ênio Lousa, diretor do Retiro.

No entanto, aos 60 anos de idade, sua saúde já não era lá essas coisas. Dois anos depois de sua chegada, no dia 27 de dezembro de 1996, o músico morreu vítima de infarto agudo do miocárdio. Em seu enterro, compareceram apenas alguns amigos do Retiro dos Artistas e conhecidos mais próximos. Sem ter reconhecimento de seu trabalho em vida e quase 20 anos depois de sua morte, seu principal patrimônio, Tribo Massáhi – Estrelando Embaixador, finalmente ganha relançamento oficial à altura.

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