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“A garotada ainda vai redescobrir o CD”

Idealizador do selo Discobertas, Marcelo Fróes fala de seu trabalho ao Álbum

texto Itamar Dantas

Marcelo Fróes e dois de seus relançamentos: box com discos de Pery Ribeiro e o primeiro álbum de Martinho da Vila. Fotos: divulgação

Marcelo Fróes, há 20 anos, é um pesquisador requisitado pelas gravadoras para buscar pérolas da música brasileira perdidas no tempo. Mas, nessa trajetória, nem todos os projetos que Fróes gostaria que fossem reeditados em CD foram aceitos, geralmente por falta de interesse comercial. Foi o próprio diretor de uma das gravadoras quem sugeriu a Marcelo que criasse um selo próprio, pelo qual ele pudesse lançar suas raridades com maior liberdade.

Assim, em 2007, foi criado o selo Discobertas e, em 2008, saiu o primeiro CD, Zé Ramalho da Paraíba, uma compilação de gravações em fitas cassete do músico, feitas durante a década de 1970. Depois, veio um disco com raridades de Jackson do Pandeiro e, hoje em dia, o selo já conta com um catálogo com mais de cem relançamentos. Os dois mais recentes são um box com sete álbuns da década de 1960 de Pery Ribeiro e o primeiro disco de Martinho da Vila, Nem Todo Crioulo é Doido, de 1968.

Completando cinco anos dessa história, Marcelo Fróes concedeu uma entrevista ao Álbum, em que fala das dificuldades e êxitos de ter uma gravadora com foco no resgate da memória musical brasileira.

ÁLBUM – O selo Discobertas tem em seu portfólio o relançamento de discos da música brasileira. O que o levou a esse nicho de mercado?
MARCELO FRÓES – É decorrência de um trabalho que já desenvolvo para as gravadoras, como consultor ou produtor executivo, há mais de 20 anos. Com a crise no mercado se instaurando desde a virada do século, muitos projetos que eu propunha às grandes gravadoras batiam na trave por questões mercadológicas. Foi o presidente de uma delas que sugeriu que eu abrisse um selo, mas ele foi mais visionário que eu: levei 5 anos pra levar a sugestão a sério. Abri o Discobertas em 2007 e, em 2008, há exatos cinco anos, começamos a lançar produtos – inicialmente, como um selo com distribuição da gravadora Coqueiro Verde, do meu amigo Erasmo Carlos, e desde 2009 pela Microservice, já como uma gravadora mesmo.

Quais foram os maiores êxitos comerciais do Discobertas? A que você credita esses sucessos?
Acredito que (foram) os CDs com raridades de Renato Russo e Zé Ramalho, além das caixas de Zimbo Trio e Celly Campello. Falam alto o carisma dos artistas, seu conceito histórico e também a existência de fãs e colecionadores.

Qual foi o trabalho mais difícil de relançar? Por quê?
O mais difícil eu diria que foi aquilo que não saiu. Não conseguimos relançar os discos dos Novos Baianos, porque alguns membros infelizmente não concordaram e outros nem responderam. E também os dois  primeiros álbuns do Bezerra da Silva, porque não havia muito entrosamento entre todos os herdeiros que teriam de assinar.

A partir do slogan do selo “Porque música é muito mais do que áudio executável”, como você avalia o mercado de discos atual?
Muito esperançoso na música digital, pelo menos enquanto os executivos conseguirem montar business plans que convençam investidores a acreditar e esperar. Por outro lado, acho que as recentes gerações foram fundo demais na banalização da música com mp3 de baixa resolução. E, graças à reavaliação do bom áudio a bordo dos resgates dos LPs, estão finalmente descobrindo que os CDs trazem som de alta qualidade… e sem chiado!

Como você imagina o futuro desse mercado?
Eu acho que, depois das megastores fecharem suas portas e dos CDs serem caixa de bombom para quem realmente aprecia, futuramente a garotada vai redescobrir o CD. Talvez um dia um visionário abra uma loja de CDs no Village e aí todo mundo vai achar que CD é o máximo!

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