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A Espetacular Charanga do França no Carnaval paulistano

O bloco desfila no dia 27 de fevereiro, no bairro Santa Cecília

texto Jullyanna Salles    |   fotos Alexandre Pereira

Thiago conta: “Acho superimportante continuar desse jeito, livre, caótico, dionisíaco, com as pessoas se sentindo à vontade”

Nos últimos anos, a capital paulista deixou de ficar vazia durante o Carnaval e ganhou um público crescente nos blocos de rua. A terra da garoa passou a ouvir as diferentes melodias e, das marchinhas aos sambas-enredo, ganhou ritmos e harmonias além do glitter e das fantasias.

Um dos nomes recentes entre os mais de 500 blocos que ocuparam o espaço público em 2016, a Espetacular Charanga do França anunciou a folia já no dia 1º de janeiro, no mesmo ano que seu idealizador, Thiago França, lançou o disco O Último Carnaval de Nossas Vidas. O álbum conta com 11 canções inéditas. Na última sexta-feira, dia 17, a banda lançou um novo EP, composto de quatro músicas instrumentais também inéditas.

Thiago França é integrante da Metá Metá, ao lado de Kiko Dinucci e Juçara Marçal. Ele conta que, imerso num universo experimental proporcionado pelo grupo e por outros projetos adjacentes, teve vontade de atuar também em algo mais cru, em que pudesse “esquecer os pedais”. A Espetacular Charanga do França nasceu de um apelo do público que já acompanhava Thiago – que trabalhava como instrumentista em bailes, pré-carnavais e eventos do tipo. Seu afeto pelas charangas vem desde a infância, quando a relação entre música e futebol era bem presente em seus dias: “Sou mineiro, atleticano, e frequentei muito o Mineirão. A charanga do galo é muito emblemática, até hoje está em atividade, era muito presente nos jogos”.

Como se faz um bloco?
Ao fazer um post no Facebook conferindo quem de fato o ajudaria a montar um bloco, Thiago se deparou com uma boa base de colaboradores: “As pessoas começaram a se organizar e nem me consultar mais. No dia tinha estandarte e um monte de coisa que eu nem sabia, foi tudo espontâneo”. Alice Coutinho, amiga do músico, compositora e produtora, se disponibilizou para resolver os entraves burocráticos. Atualmente o bloco tem um núcleo de sete pessoas cuidando dos diferentes aspectos da organização.

Para tocar com a banda só era necessário comparecer no horário da saída com o próprio instrumento. Como constatou um número razoável de participações em 2016, Thiago decidiu promover oficinas de sopro para tentar igualar o número de instrumentistas desse tipo ao de percussionistas – que aparecem em maior quantidade, o que pode encobrir trombones e trompetes. As aulas prepararam 30 músicos para a edição do bloco em 2017. O idealizador estima cerca de 70 pessoas na composição da banda neste ano.

Por que fazer um bloco?
O bloco nasceu, da parte de Thiago, com um interesse político: “Minha inclinação para fazer o bloco tem, mas não primordialmente, viés político-social, uma preocupação com a ocupação de espaços públicos, em mostrar para o poder público como a cidade é carente de eventos na rua e como as pessoas querem estar na rua”, conta.

A Espetacular Charanga do França não conta com patrocínio, já que o modelo não é muito suscetível a uma lógica de geração de lucro. Thiago explica: “É muito importante que o bloco seja todo acústico e no chão. Acredito muito mais nesse modelo de proximidade com a banda. Se tiver dinheiro envolvido, vai se tornar trabalho. Eu não quero ninguém lá de cara amarrada para poder fazer um cachê. Eu quero que vá quem quer tocar, só vai quem está a fim”.

Outro fator levado em consideração na montagem e permanência do bloco é o impacto que ele pode trazer para as pessoas. O músico conta que na Charanga há instrumentistas que até então não haviam se apresentado em público e a partir disso encontraram um hobby, foram fazer cursos e aprender mais sobre o instrumento.

Além disso, outra presença marcante na Espetacular Charanga do França é levar a sério a problematização de alguns aspectos carnavalescos. As letras das marchinhas criadas por Thiago não reproduzem preconceito ou opressão, o que diversifica e atrai todos os tipos de público. O bloco também participa de uma campanha de conscientização para um Carnaval sem assédio: “Toda a organização, menos eu, é feminina e a gente luta para impor um limite. Estimular respeito não significa que o Carnaval vai ficar chato ou careta. Muito pelo contrário: ele está se modernizando, está abraçando cada vez mais pessoas para se tornar realmente legal para todo mundo”.

O Carnaval é “uma ótima desculpa para conseguir coisas para o ano inteiro”, diz. Ele destaca que é um período em que os olhos do mundo todo se voltam para o Brasil e para o que é repercutido na festa, por isso é importante estimular ações que desaprovem preconceitos, aproximem a população do poder municipal e incentivem a ocupação de espaços públicos. “Foi sacando tudo isso que percebi que não poderia não fazer esse bloco”, explica.

Cadê o bloco?
A Espetacular Charanga do França desfila no dia 27 de fevereiro, segunda-feira. A concentração é na Rua Imaculada Conceição, 151, às 16h. Colaborativo e aberto, o bloco aceita participantes de qualquer tipo: foliões, interessados em ajudar na organização e músicos, que podem acessar a partitura das canções por meio deste link. Além disso, convida outros blocos que queiram integrar a festa. É só chegar!

Para mais informações, consulte a fanpage da Charanga e o evento do bloco. Também é possível ouvir o repertório da Espetacular Charanga do França no Spotify.

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