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A composição nua

Em Rimanceiro, sétimo álbum solo de Sérgio Santos, músico celebra 20 anos de parcerias com Paulo César Pinheiro

texto Itamar Dantas

Em Rimanceiro, sétimo álbum solo de Sérgio Santos, músico celebra 20 anos de parcerias com Paulo César Pinheiro. Foto: divulgação

Sérgio Santos lança seu sétimo álbum, Rimanceiro, em que comemora 20 anos de parcerias com Paulo César Pinheiro. São 14 composições inéditas criadas pela dupla. Na longa trajetória conjunta, os compositores registram mais de 250 obras com harmonias de Santos e letras de Pinheiro. ”Onça Pintada”, primeira música da dupla, permaneceu inédita até agora e ganha forma no novo trabalho.

O tema recorrente no álbum é o mato e, para ambientá-lo, Sérgio Santos desenhou uma atmosfera sonora simples. Acompanhado de Sílvio D’Amico, o músico dá vida às canções com dois violões e a complexidade harmônica que a falta de outros timbres exige. “É muito difícil construir um trabalho no qual se lida com um único timbre. Desaparecem todas as possibilidades de variação que uma instrumentação maior apresenta”, explica Santos.

No vídeo de divulgação, Paulo César Pinheiro explica a origem do neologismo, rimanceiro, que batiza o trabalho“Tem uma palavra chamada ‘rimance’, que é uma espécie de  poesia medieval, que era dos menestréis. E aí ficou na minha cabeça, romance, rimance, cancioneiro, rima. Rimanceiro seria o cancioneiro dos rimances. Achei bonito e inventei isso.” Em entrevista ao Álbum, Sérgio Santos fala da parceria com Paulo César Pinheiro e conta causos do novo álbum.

ÁLBUM – Vinte anos de parcerias com o Paulo César Pinheiro… Como foi o primeiro encontro de vocês para compor? Qual foi a primeira música?
SÉRGIO SANTOS – Fomos apresentados por um compositor que é nosso amigo comum, Moacyr Luz. Ele me levou à casa do Paulinho, no Rio, onde passamos uma tarde tocando e jogando conversa fora. Ao voltar para Belo Horizonte, criei coragem e mandei para ele uma fita cassete com três melodias para ele ter opção, caso não gostasse de uma ainda haveria outras duas. Em alguns dias ele me mandou as três letras prontas, e até hoje não paramos mais. São mais de 250 canções e continuamos com a vontade intacta de criar juntos. Agora mesmo estou com seis letras novas para musicar. A primeira foi “Onça Pintada”, que estava inédita até agora e está no CD Rimanceiro. Na verdade, isso demonstra que nossa música é atemporal, pois uma canção que foi composta há 20 anos permaneceu inédita por todo esse tempo e foi gravada como se tivesse sido composta ontem.

Você poderia destacar uma composição do disco e contar um pouco sobre ela?
Não conseguiria destacar uma única música do disco. Cada uma delas tem um motivo diferente para que eu goste. Mas uma em particular tem uma história bem interessante: “Aço e Seda”. Há alguns anos Paulinho me apresentou uma letra belíssima para musicar que se chamava “Projeto de Vida”. Fiz a melodia para a letra, mandei para ele e ficamos felizes com a nova canção. Passou-se um bom tempo e, em uma visita que lhe fiz, ele me mostrou algumas músicas de um disco maravilhoso de nosso querido amigo Dori Caymmi, que estava para ser lançado naqueles dias. Uma das músicas do disco me chamou imediatamente a atenção: era a letra de “Projeto de Vida”. Ele havia se distraído e se confundiu, mandando para Dori uma letra que eu já havia musicado! E Dori, mestre que é, fez uma melodia belíssima. Ou seja, tínhamos um impasse, com duas melodias para a mesma letra! E como Dori já tinha gravado a sua, logicamente seria ela que deveria prevalecer. Claro que rimos da situação, e ele, incomodado com a confusão que fizera, imediatamente ouviu a melodia que eu havia construído para “Projeto de Vida” e no dia seguinte me mandou uma outra letra igualmente maravilhosa. Assim nasceu “Aço e Seda”, que abre Rimanceiro.

Como você chegou ao conceito de fazer um álbum basicamente com voz e violões?
Sempre quis fazer um disco assim, em que a composição pudesse estar totalmente nua, mostrando com clareza os caminhos escolhidos para a criação musical. Essa simplicidade aparente oculta uma grande dificuldade: é muito difícil construir um trabalho no qual se lida com um único timbre. Desaparecem todas as possibilidades de variação que uma instrumentação maior apresenta. A fuga da linearidade não pode mais se dar pela diversidade tímbrica do arranjo e tem de necessariamente acontecer pelas cores da própria composição. Características do texto, peculiaridades harmônicas, diferenças de motivos melódicos, de ritmos e de intenções de interpretação vocal passam a cumprir esse papel. Além disso, os acertos e os erros ficam muito mais evidentes, não há como se esconder em um trabalho assim. Mais ainda do que em trabalhos com instrumentação mais complexa, há que se estar absolutamente entregue. O que é um desafio e tanto, mas que valeu inteiramente!

O tema recorrente do mato no disco. Qual é a relação da música de ambos com o ambiente rural?
Na verdade somos ambos admiradores profundos de Guimarães Rosa. Paulinho já fez obras-primas pelo viés roseano, como “Sagarana”, com João de Aquino, “Desenredo”, com Dori Caymmi, e “Matita Perê”, com Tom Jobim. Eu também tenho muito forte a referência do sertão de Rosa. Quando fomos pesquisar no nosso repertório o que havia de inédito para esse disco, percebemos que havia uma grande prevalência do material que tinha esse sertão como temática: o jagunço, a cartucheira, a onça, o buritizeiro, a vereda, o rio, o mato. Portanto, foi natural a escolha por esse caminho. Na verdade somos ambos apaixonados pelo Brasil, e o Brasil não é apenas o urbano da megalópole. Há uma riqueza monumental e perene no Brasil interior e é esse universo que tem guiado uma boa parte do que fizemos nesses 20 anos de parceria.

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