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A Bahia metafórica de Rodrigo Campos

Cantor e compositor paulista fala sobre seu segundo álbum, Bahia Fantástica

texto Patrícia Colombo

Para Rodrigo Campos, a Bahia "é algo mítico, complexo, sem significado objetivo". Foto: Ding Musa/divulgação

O cantor e compositor Rodrigo Campos está com um novo álbum na praça, Bahia Fantástica. O aguardado trabalho sucede o lançamento do elogiado disco de estreia São Mateus Não É um Lugar Assim Tão Longe, de 2009. Como o próprio título entrega, as canções falam da relação do artista com o lar dos baianos. Porém, em entrevista ao Álbum, ele conta que a abordagem é ainda mais profunda.

A ideia do disco nasceu após uma viagem de dez dias feita pelo paulista (Campos nasceu em Conchas, no interior de São Paulo, e foi criado no bairro de São Mateus, zona leste da capital) a Salvador. Por lá, ficou hospedado na casa que foi de Vinicius de Moraes − incorporada ao hotel Mar Brasil, em Itapoã – e, após umas semanas, já de volta a São Paulo caracteristicamente cinzenta, percebeu que andava escrevendo sobre a Bahia, sem ao certo compreender o porquê de tudo aquilo. “Aos poucos descobri que estava compondo mais sobre uma sensação do que sobre um lugar. A Bahia se transformou numa metáfora sobre a incompreensão, sobre o medo e o deslumbramento de estar diante de algo maior e intangível”, conta ele.

“Passei um tempo pensando sobre a morte, sobre a razão de viver e tive uma espécie de crise existencial. Já vinha compondo, antes da viagem, de maneira mais subjetiva, mesmo ainda falando de personagens da periferia. Quando a Bahia entrou na conta ficou claro que minha crise já havia influenciado essas canções [mais antigas], e que a Bahia era, agora, a própria sensação de incompreensão”, discorre. “Acho que ela, no meu imaginário, é algo mítico, complexo, sem significado objetivo, por todos os seus paradoxos como nascedouro do Brasil, da cultura brasileira, do sincretismo religioso, da miscigenação. É o início. E é, justamente, o início como metáfora do fim, da morte, pois a perplexidade existe em relação a esses dois polos.”

Capa do 2º disco de Rodrigo Campos. Foto: divulgação

A produção contou com o próprio Campos junto a Gustavo Lenza e Romulo Fróes, tendo ainda as mãos dos instrumentistas que participam do disco: Kiko Dinucci (guitarra), Mauricio Fleury (piano elétrico), Mauricio Takara (bateria) e Thiago França (sax e flauta). “Essas parcerias foram acontecendo naturalmente. Há algum tempo passamos a nos frequentar, como amigos e parceiros musicais − principalmente eu, Kiko, Romulo, Thiago e Cabral”, comenta. “Fizemos alguns discos em colaboração, como Um Labirinto em Cada Pé (de Fróes), Passo Torto (de Romulo Fróes, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral), Metá Metá (de Dinucci com Juçara Marçal e França) e Sambanzo (de Thiago França). Quando ficou claro que eu queria fazer um disco ao vivo, depois de ter feito um disco de camadas com Beto Villares e grande elenco, não tive dúvidas quanto ao interesse de dar continuidade ao ciclo de colaborações que tínhamos iniciado. Incluímos Takara e Fleury, que além de excelentes artistas eram ‘ramificações’ da turma, e a química rolou.”

Criolo, Gui Amabis, Luísa Maita, Guilherme Held e Juçara Marçal completam o time de participações no álbum, que conta com 12 faixas. Destaque para a percussão e para os instrumentos de sopro. Há referências ao jazz e ao rock e ainda uma leve pitada de afrobeat em uma ou outra canção.

Tendo lançado o material três anos após São Mateus Não É um Lugar Assim Tão Longe, Rodrigo Campos fala sobre as diferenças em termos de vivência na música: “Não me sinto com mais experiência, mas me sinto, sim, um pouco mais maduro e menos suscetível em alguns aspectos. Como artista, a ideia é continuar na corda bamba, experimentando, me permitindo coisas e abandonando outras. Isso faz com que a experiência seja relativa, pois o resultado das coisas, dentro dessa premissa, é sempre um pouco mais imprevisível”.

Ouça abaixo, em streaming, o álbum Bahia Fantástica:

*Rodrigo Campos foi consultor do Quinteto Mujangué, formado a partir do Rumos Música Coletivo 2010-2012. Em breve você verá aqui no Álbum os vídeos do show do Quinteto, realizado no Itaú Cultural. Por enquanto, fique com o registro do ensaio.

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